A certificação da viola amarantina, atestando o seu método construtivo, vai permitir, em breve, a atribuição dos primeiros selos de autenticidade do instrumento, considerado pela autarquia como o mais rico entre as violas de arame portuguesas.
“Os construtores que obedeçam a este caderno de especificações serão certificados. Portanto, as violas passarão a ter um selo de certificação numerado”, explicou à Lusa Rosário Machado, diretora de departamento de cultura da autarquia que tem acompanhado o processo.
No ano passado, contou, o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) aprovou o pedido de certificação da viola amarantina como “produto artesanal tradicional”, com base num caderno de especificações técnicas elaborado no âmbito de um estudo científico e etnográfico mandado elaborar pela câmara municipal.
Esse trabalho envolveu construtores, tocadores e investigadores que colaboraram na elaboração do caderno de especificações, que indica todas as características do instrumento, os métodos e os materiais exigidos para a sua construção.

Já este ano, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) registou a denominação de origem e indicação geográfica da viola amarantina.
No terreno, avançou Rosário Machado, já se encontra a trabalhar com os artesãos a comissão de acompanhamento do processo de certificação, envolvendo todas as entidades envolvidas no processo iniciado em 2022.
“Sendo nós Cidade da Música UNESCO, é importante que este património não se perca”
A responsável assinala a importância do trabalho já realizado, começando por destacar que Amarante integra a rede de cidades criativas da UNESCO, o que reforça a sua responsabilidade nesta dinâmica.
“Sendo nós Cidade da Música UNESCO, é importante que este património não se perca”, anotou.
Falou depois do que distingue a amarantina das demais violas de arame, suas “primas”, como a braguesa, a açoriana ou a beiroa.
“Foi um estudo muito profundo e chegou-se à conclusão de que a raiz é a mesma, mas que a viola amarantina é quase a gourmet, porque é a mais bonita e a mais cara”, afirmou, observado que apresenta geralmente madeiras mais nobres e uma decoração mais rica, destacando-se os seus dois corações, fazendo dela uma opção mais cara aquando da aquisição.
Exibindo uma brochura onde se observam fotografias das diferentes fases da construção, com o inventário das medidas, dos materiais e das ferramentas, entre outros dados técnicos, insistiu que o estudo foi muito exaustivo porque, para Amarante, “a viola amarantina é um elemento patrimonial, é uma marca da cidade”.
“A melhor forma de o salvaguardar é a certificação, a salvaguarda e a proteção”, acentuou.

No concelho, contou, encontram-se ainda alguns artesãos que fazem as amarantinas, mas há outros, nomeadamente em Felgueiras e em Braga. Todos os construtores, mesmo os que não estão em Amarante, podem ser certificados desde que respeitem o caderno de especificações, sinalizou.
As primeiras referências históricas à viola amarantina apontam, segundo o estudo, para os séculos XV e XVI. Contudo, há algumas décadas, havia o risco de o instrumento desaparecer, também devido ao seu preço elevado. Porém, o trabalho que tem sido realizado inverteu essa tendência.
Hoje, contou à agência Lusa, há escolas no concelho e até alguns entusiastas que já ensinam crianças, jovens e adultos a tocar o instrumento. A câmara também ofereceu violas amarantinas a todos os grupos folclóricos para passaram a usá-las nas suas atuações.
A técnica insistiu que a autarquia não pretende com a certificação fazer da viola amarantina “um processo estanque de património”, mas algo que possa fazer parte de “novas musicalidades, novos estilos e fonte de criatividade artística” a nível nacional e internacional, também no âmbito da rede UNESCO.
“Essa será a melhor maneira de a salvaguardar”, defendeu.
Armindo Mendes/LUSA