Grupo de voluntários apoia pessoas sem abrigo entre Amarante e o Porto

Um grupo de 16 voluntários oriundos de vários concelhos da região e do Grande Porto apoia mensalmente cerca de 50 pessoas que vivem nas ruas, iniciando o percurso de apoio em Amarante em direção à cidade invicta.

 

“Amigo dos Sem Abrigo” é o nome do projeto, que arrancou pelas mãos de Jorge Ferreira, e que coloca os voluntários na rua uma vez a cada três semanas, distribuindo roupa, calçado, produtos de higiene, refeições quentes e lanches para consumir no dia seguinte.

Jorge Ferreira adianta que a área de atuação começa em Amarante, mas sublinha que é no Grande Porto onde está a maior quantidade de casos.

“Não pudemos ficar indiferentes aos pedidos das famílias”, frisa.

 

Grupo apoia também famílias carenciadas

Apesar de, inicialmente, o projeto incidir sobre a questão dos sem-abrigo, o grupo viu-se a braços com uma série de pedidos de apoio por parte de agregados familiares em situação de grande carência.

“Começamos a ser abordados por famílias que perguntavam se só trabalhávamos com quem vivia na rua ou se as podíamos ajudar, também. Apesar de não fazer parte dos nossos planos, não pudemos ficar indiferentes”, acrescenta.

O responsável pelo projeto adiantou que se deparou com situações em que faltavam as “coisas mais básicas”, como fraldas, comida e mesmo dinheiro para pagar renda.

 

 

“Na sua maioria, são famílias onde ocorreu uma quebra, como um divórcio, por exemplo, ou desemprego, e que deixou os agregados, muitos deles com várias crianças, com problemas em equilibrar as suas economias”, acrescenta.

Jorge Ferreira salienta que, no caso de apoio às famílias, a intervenção do grupo é “pontual” porque, na maioria dos casos, o que precisam é de um “empurrão que ajude a estabilizar a situação”.

“Não estão dependentes de nós, só damos uma ajuda inicial que terão que aproveitar para resolver a sua situação”, acrescenta.

 

Mais pessoas a viver nas ruas e mais pedidos de ajuda desde o início da pandemia

O mentor do projeto disse, ainda, que desde o início da pandemia da covid-19 o número de pessoas a viver na rua tem vindo a aumentar, bem como os pedidos de apoio de famílias carenciadas.

“De saída para saída, noto que o número de pessoas a viver nesta situação tem aumentado, e muito”, explicou Jorge Ferreira.

 

 

Acrescenta, ainda, que o grupo alargou a prestação de ajuda a famílias carenciadas, um problema que se tem multiplicado, diz, desde a mesma altura.

“Temos muitos casos de pessoas que estão no extremo das suas capacidades, particularmente na alimentação. O número de pedidos triplicou, posso dizer mesmo que está um caos”, acrescenta.

 

“Todos deviam ir à rua uma vez na vida”

Voltando à questão dos sem-abrigo, Jorge Ferreira salienta que, nas suas saídas, se cruza com pessoas “muito humanas, dignas, educadas” e que rejeita o mito da sua aparente associação aos problemas da toxicodependência, do alcoolismo e do crime.

“Claro que esses problemas existem, mas o que encontramos, na rua, são pessoas que não perderam o seu sentido de dignidade, sobretudo”, explica. E exemplifica:

“Quando entregamos roupas, convidamos a escolher mais que uma peça, porque levamos bastante material. Mas a maioria escolhe só uma, explicando que o restante pode fazer falta a outra pessoa. O mesmo ocorre com as refeições, por exemplo. Ali, na rua, não há ganância ou egoísmo”.

 

 

Adianta, ainda, que faltam soluções oficiais para a questão dos sem-abrigo e que é preciso desmistificar a condição destas pessoas, particularmente a sua associação a outros problemas da sociedade.

“A verdade é que não se dá oportunidades, nomeadamente de emprego, a estas pessoas, porque os mitos persistem”, explica, acrescentando:

“Todos nós devíamos ir, pelo menos uma vez, à rua, para valorizar aquilo que temos. Eu prezo a rua, cada vez gosto mais da rua porque é ali que encontro, sempre que saio, pessoas respeitosas e educadas”.

 

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