O escritor José Gonçalves disse ao Expresso de Amarante que é essencial um trabalho de divulgação que dê maior destaque, a nível nacional, aos autores amarantinos e que este deveria partir do berço territorial, nomeadamente através de um plano local de leitura “vivo” e a criação de uma residência artística para escritores, locais e não locais, “num sistema integrado com outros lugares literários e com a sua comunidade”.
José Gonçalves abriu, no domingo, o ciclo de entrevistas com autores da Festa do Livro promovida pela União de Freguesias de Amarante, numa sessão moderada pela escritora Anabela Borges.
“Somos, efetivamente, muito bons [na área da literatura] mas temos que reconhecer e transmitir esse valor. Eles [autores amarantinos] fizeram o seu trabalho, dignamente, e cabe-nos a nós transmitir esse legado, motivando à leitura e à escrita, fomentando a imaginação e a criatividade” explicou, em declarações à parte do certame.
Na apresentação, que se centrou no que acabará por ser a segunda parte de um tríptico de livros iniciado com “filhos de humanizado sal”, que dedica aos temas do mar, comunidade, território, memória e direitos humanos, o escritor salientou ainda a pouca relevância dos autores de Amarante no panorama literário nacional.

“Falta assumir e defender que uma leitura de Agustina não é densa ou explicar que a leitura de um Pascoaes não se reduz a um teor filosófico. Foi precisamente esta adjetivação constante que fez com que eu me afastasse, até há bem pouco tempo, destes dois grandes autores, iniciando mais tarde a leitura das suas obras E sei que aconteceu assim com outros leitores que os descobriram mais tarde”, anotou.
José Gonçalves sublinhou que este trabalho, “esta discussão e olhar para dentro deste nosso património”, pode ser potenciado no ano em que se celebra o 100º aniversário do nascimento de Agustina Bessa-Luís.
Falando sobre a autora natural de Vila Meã, José Gonçalves afirma que há, em várias das suas obras, um “interior” com particularidades que mostram aquilo que “nós, amarantinos, também somos”.
“Falta olhar para estes livros não como algo estático, mas um todo dinâmico”, acrescentou, sublinhando que falta somar uma “componente pedagógica, não impositiva” na sua análise.

Entre outras iniciativas, o autor defende a criação de um plano local de leitura e de um espaço ou residência artística para escritores locais “onde a comunidade seja auscultada e participe nesta construção coletiva do seu património.”
“Por um lado, a residência de autores de maior projeção daria algum prestígio imediato a Amarante, mas, por outro, também há aquele prestígio, de autores amarantinos, pelo qual se terá que esperar: trabalhar, publicar e, passados 20, 30 anos (alguns esperam 100), ficar com aquela marca, identidade, de que é de Amarante”, concluiu.
José Gonçalves, natural de Cepelos, em Amarante, é autor, até à data, de cinco livros.
O mais recente, “Vivalma no lugar do esquecimento”, foi publicado em 2020. O livro anterior, “filhos de humanizado sal”, foi publicado em 2017.
Ainda este ano, o autor prevê publicar o segundo volume do tríptico iniciado com “filhos de humanizado sal” do qual já revelou um capítulo, publicado recentemente na Revista Literária Grotta – Arquipélago de Escritores, da editora açoreana Letras Lavadas.